quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Língua grudada no congelador

Essa é outra história cômica das muitas, quando era criança. Essa ocasião ocorreu quando tinha mais ou menos uns 7-8 anos. Era verão e o calor estava intenso. Em dias assim, meus pais gostavam de fazer sorvetes caseiros, principalmente para aproveitar o calor e a variedade de frutas que davam no quintal.

Eram sorvetes simples mas muito gostosos, geralmente batia-se a fruta no liquidificador com leite e açúcar, colocava isso dentro de copos e depois no congelador. Eu adorava quando eles faziam isso e até ficava ansioso, esperando congelar para poder pegar. A nossa geladeira era daquelas antigas e relativamente alta, tanto é que para eu poder alcançar alguma coisa de lá ou pedia para meus pais pegarem ou tinha que subir numa cadeira para alcançar.

Era uma dessas e para mim, na época, parecia bem alta      


Num certo dia, meus pais saíram fazer compras no mercado. Naquela época, sempre íamos juntos, quando era para fazer a compra mensal, mas não lembro o por quê nessa ocasião eu havia ficado em casa. Como estava muito calor, lembrei dos sorvetes e como estava sozinho e não alcançava o congelador, subi numa cadeira para pegar.

Eis que abro a porta e vem a decepção, não havia nenhum sorvete ali. Entretanto, uma coisa me chamou a atenção. Notei que em algumas partes no freezer, os sorvetes antigos haviam escorrido e congelado e aí me veio a brilhante ideia vencedora do prêmio "jênio" (com jota mesmo) do ano. Pensei em lamber o negócio. 

Na ponta dos pés, em cima da cadeira e esticando o pescoço, coloquei a cabeça dentro do congelador e consegui por a língua sobre o sorvete escorrido. No mesmo instante aconteceu o óbvio. A língua grudou e aí que veio o desespero. Imediatamente tentei puxar, sem sucesso. Pelo susto quase que me desequilibro, e quanto mais tempo passava mais congelava, o tempo urgia. Aí, como não teve outro jeito, puxei com força de uma vez e finalmente consegui soltar. Um pedacinho da ponta da língua lá havia ficado. 

Não foi algo sério e sim, mais o susto, apenas o suficiente para ficar doendo alguns dias até sarar completamente. Havia aprendido a lição para nunca mais fazer essa besteira.



sábado, 17 de fevereiro de 2018

O dia em que fugi de uma capivara

Essa famosa história rende muitas risadas sempre que eu conto. Ocorreu quando fui a Campos do Jordão, São Paulo, fazer umas coletas de peixes e experimentos para meu doutorado. O local em que eu havia ido, uma estação experimental de piscicultura, fica dentro de um Parque Estadual, conhecido também como Horto Florestal e é aberto durante o dia para visitação do público. É bastante visitado por turistas, pois entre os atrativos há trilhas, lojas de artesanato, bosques, orquidário, viveiro de mudas, restaurante e outras coisas. A área preservada é bastante extensa, recoberta por Mata Atlântica de altitude.   




O lugar é muito bonito, para quem tiver oportunidade e curte natureza, recomendo dar uma visitada


Estação experimental de Truticultura

A região é relativamente afastada do centro urbano da cidade e quando eu fui, fiquei durante uma semana. Posava num dos alojamentos do parque, que são exclusivos para pesquisadores, estagiários ou trabalhadores que vão lá permanecer algum período. 

O alojamento em que havia ficado, fica bem próximo à entrada do parque, sendo afastado uns 4 km de caminhada da Estação de Truticultura, em que eu ia todos os dias cedo e voltava já anoitecendo. A noite, o parque fecha para visitação, podendo permanecer lá dentro somente os funcionários ou pesquisadores nos alojamentos. Quando eu fui, meados de Janeiro, durante a noite ficava completamente vazio, já que era período de férias. Praticamente o único alojamento com alguém era o que eu estava. Junto comigo havia outro rapaz, um acadêmico de administração, fazendo estágio na secretaria do Parque. Ele me comentou que não morava no estado de São Paulo, era de Minas e todo final de semana ele voltava para casa. Sempre que eu voltava da estação ao alojamento, quase anoitecendo, o rapaz já estava lá dentro, com exceção do dia em que fugi da capivara. 

As capivaras são os maiores roedores do mundo, sendo conhecidas por serem bastante dóceis e sociáveis.

                                 É, confesso que são seres simpáticos.                    imgur


Naquela sexta feira, o último dia de trabalho em que fiquei lá, havia sido o mais corrido e as atividades haviam se estendido um pouco mais. Quando eu saí da estação, já estava quase escuro, mas ainda dava pra enxergar o caminho. Como era uma caminhada de uns 40 min até o alojamento, resolvi apressar o passo. Gostei da caminhada, estava fresco e durante todo o trajeto ouvia-se apenas o som da natureza, já que não havia mais ninguém dentro do parque. 
Já quase me aproximando do alojamento, eu vindo apressado pelo caminho quando de repente escuto um grito, berro, rugido (sei lá como chama o som produzido) de um bicho grande, que na hora me fez arrepiar os cabelos. Olhei rapidamente em direção ao som e vi o ser famigerado que o produzia - uma única e isolada capivara no meio de um campo. 

Achei curioso porque ela estava sozinha e reparei que começou a me encarar, e os pelos das costas se eriçaram. Pensei, só falta agora esse bicho querer me atacar aqui no meio do nada. Andei mais ligeiro ainda, quase correndo, até ela não conseguir me ver mais. Ainda ouvia os berros dela, não olhei para trás mas deu impressão que ela estava me seguiu durante algum tempo.


A única foto que consegui tirar da capionça. Vejam os pelos das costas arrepiados.

Chegando no alojamento, já escuro pelo anoitecer, me deparo com mais uma coisa: o carro do rapaz não estava lá. Na hora já lembrei que ele havia comentado que ele voltava para casa nos finais de semana e me deu um embrulho no estômago, porque lembrei que não havia combinado como faríamos com a chave. 

Se não conseguisse entrar, já estava pensando na possibilidade de ter que voltar todo o trajeto até a estação, no escuro, e com a capivara na espreita. Mas eis que me veio a ideia de procurar a chave por perto da porta. Vasculhei cada canto e perto do tanque de roupa, já quase desistindo, vi a fonte do meu alívio do dia, a chave ali estava, num vão do tijolo. Dormi aliviado, pensando onde estaria aquela capivara maluca.


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A vez em que mordi a língua do meu cachorro

É isso mesmo, eu já mordi a língua de um cachorro. Aproveitando a contar essa história engraçada, também uso da ocasião para deixar uma homenagem a este cãozinho que tanto marcou minha vida e da minha família. 

Esse cachorro em questão, de nome Pingo, era o xodó da família, um pequenino vira-lata que eu conheci ainda quando nem tinha aberto os olhos e cabia na palma da mão. Era um dos filhotes, de uma ninhada de 6. A mãe era um cachorro de rua e deu à luz num buraco, num terreno baldio perto de casa. Quando os filhotes nasceram, um dos vizinhos, que nunca cuidava nem dos próprios cachorros, resolveu ficar com eles. Um dos filhotinhos em questão havia chamado minha atenção pois era o único de cor diferente em relação aos demais - era branquinho com algumas manchas marrons. Já seus irmãos eram marrons e pretos. 

O vizinho percebeu que eu havia me interessado e perguntou se eu não queria comprá-lo. Achei um absurdo, pois os cachorros eram de rua. Mas como tinha sido o vizinho quem havia notado os filhotes antes, não pude contestar. Resolvi compra-lo e aproveitei e peguei outro dos irmãos dele, que foi nomeado de Roliço, pois era o mais gordinho de todos.

Quando trouxe para casa, a intenção era deixá-los no quintal, junto com os demais (já tínhamos mais outros três). Montamos um cercadinho, colocamos a casinha e tudo mais e deixamos eles lá. Choravam muito no começo e sempre queriam companhia. O Pingo a partir desse momento já começou a demonstrar sua esperteza e que não era um cachorro qualquer. Depois de uns dias, ele aprendeu a "escalar" a tela do cercadinho e pular, para ficar junto de nós, enquanto o roliço ficava chorando sem saber o que fazer. Após muita insistência e tentativas frustradas de barrar a escalação, como eram cachorros pequenos, resolvemos traze-los para dentro de casa. Eu havia achado a ideia o máximo, já meus pais no começo não haviam curtido muito, mas depois foram gostando da ideia.

Um mês depois veio uma baixa. Mesmo com vacinas e remédios, o Roliço começou apresentar muitos vermes e acabou morrendo. O Pingo, por sua vez, mantinha de saúde exemplar. O tempo foi passando e ele cada vez mais se tornando o xodó de casa, pois era muito inteligente. Entendia tudo o que falávamos e aprendia muitas coisas sozinho. Tinha um comportamento único de ser muito expressivo, e demonstrava suas vontades através disso. Era também um grude, sempre seguindo alguém de casa. Eu, na época criança, adorava brincar com ele. 

Uma das coisas que ele fazia muito, era lamber o rosto sem parar quando era pegado no colo e uma vez, resolvi brincar de abrir e fechar a boca batendo os dentes, enquanto ele lambia. Brincadeira sem noção e nem sei por que fiz. Foi aí que bem no instante que a fechei a boca acabei mordendo a língua dele. Não foi com força mas foi inesperado. Na hora ele soltou um grito de susto, mas logo depois começou a abanar o rabinho e já voltou a me lamber novamente.

 Este é o Pingo, lendário cãozinho companheiro. 


Esse cachorrinho marcou nossas vidas, acompanhando muitas coisas junto da nossa família. Uns 10 anos depois, ele latindo no portão e um dos filhos daquele vizinho que havia me vendido, passando na frente da rua de casa, comentou surpreso que o cachorro ainda estava vivo. Não me surpreendeu o comentário, já que os demais filhotes que haviam ficado com eles já haviam morrido há muito tempo. O vizinho ficou com eles apenas enquanto eram filhotes. Assim que começaram a crescer, ficavam mais abandonados na rua do que cuidados, e o vizinho acabou dando um sumiço neles depois de um tempo.


Saudades imensas desse pequeno grande cãozinho.


O Pingo, esse cãozinho lendário, viveu por quase 20 anos. Foi o cachorro mais velho que tivemos e também o que mais deixa saudades. 

Godspeed, my dearest Pingo.


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

As vezes em que me fraturei parte 7 - Perna esquerda

A história dessa última fratura (espero que seja a última mesmo) aconteceu anos após a anterior. Foi de longe a mais tosca e a mais drástica em efeitos, em relação as demais. Já eu tendo superado todos os traumas de quedas, foi algo totalmente inesperado. O fato aconteceu no início do meu doutorado e, pode-se dizer que foi literalmente durante o trabalho. 

Em meu doutorado pesquiso aspectos evolutivos envolvendo a determinação sexual de alguns tipos de peixes e de vez em quando é preciso sair a campo coletar exemplares. É algo corriqueiro para o pessoal do laboratório em que trabalho, já acostumados a coletar em rios, riachos, lagos, córregos e outros lugares. 

Certo dia, estava eu no laboratório escrevendo algumas coisas e meu orientador chegou para mim e perguntou se eu não queria dar uma olhada em um local que poderia haver os peixes que pesquiso; era só para ir ver a região, pegar uns exemplares, mas não fazer as coletas especificamente. Achei legal a ideia, pois precisava saber se tal região tinha os peixes e queria aproveitar a oportunidade, já que meu orientador estava sugerindo irmos. Um amigo meu de laboratório ouviu e perguntou se ele não poderia ir também. O professor concordou. 

Arrumamos as coisas, pegamos uns baldes e fomos. O local é uma região bastante turística, muito frequentada por suas cachoeiras e alguns córregos rasos, não oferecendo perigo de afogamentos. Em dias de semana o local fica bastante solitário, mas nos finais de semana e feriados lota. Fomos no meio da semana e como esperado, o local estava desértico, somente com o proprietário.

Chegamos, retiramos os apetrechos e fomos conversar com o proprietário, explicar o que íamos fazer, que era só para dar uma olhada. Ele foi bastante receptivo, até nos forneceu um pouco de ração para ajudar a atrair os peixes. A ideia do meu orientador era tentar capturar alguns com tarrafa ou armadilha mesmo e já ir embora, algo rápido.

Então começamos a andar pelo local. Na entrada, passa um pouco de água no meio do caminho, mas algo bem superficial, suficiente apenas para molhar o chão. 


Essa é uma real do lugar, bastante bonito. É possível já ver a parte rasa, da entrada, que fica logo atrás desse ponto da vista, onde a água passa sob o chão e continua por um trecho. 

Meu orientador resolveu ficar descalço para andar melhor, meu amigo fez a mesma coisa e resolvi tirar os tênis também. Coloquei os pés na água, ela não era suficiente nem para cobri-los, de tão rasa. Mal comecei a andar, o orientador de um lado, meu amigo de outro e piso com o pé esquerdo em cima de uma região lisa. No mesmo instante escorreguei e caí no chão. Ao tentar me levantar novamente, senti que não conseguia pisar com o pé esquerdo. Meu amigo e o professor ficaram incrédulos pelo jeito tosco da queda, tentaram me ajudar a levantar mas não adiantava, não conseguia pisar. Na hora o pé inchou bastante. Pelo jeito da queda, apesar de estar doendo muito, achei que havia torcido ou dado algum mal jeito. 

Para ir embora, eu estava teimando a não ir para o hospital e estava com um dilema, pois não conseguia dirigir. Outro amigo meu de laboratório falou que dirigiria por mim e por insistência dele e de minha namorada seguimos ao pronto atendimento.

Lá, após esperar e dar procedimento, depois da radiografia veio a notícia, havia fraturado a tíbia e a fíbula, os dois ossos da perna e por isso não conseguia pisar. Fiquei incrédulo pois havia sido uma queda tão simples. Os médicos do plantão falaram que provavelmente iria precisar operar. Torci para não ser preciso, mas depois o ortopedista confirmou, precisaria fazer cirurgia e ainda colocar pino e placa.

O resultado da história é que acabei tendo que colocar duas placas e treze pinos, ficar uns quatro meses sem poder mexer a perna e fazer 20 sessões de fisioterapia depois. No hospital, as enfermeiras e as pessoas perguntavam se eu não tinha caído de moto, tamanho o estrago. Mal sabiam elas que era apenas uma queda no chão por escorregão.



Esta é a radiografia 


Na última consulta, após as fisioterapias, perguntei  ao médico se meus ossos eram ok, contei o histórico das fraturas e ele falou que meus ossos são normais, e que apenas foi o modo de cair que foi errado (não sei cair, já ouvi isso antes) ou azar mesmo. Segundo ele, provavelmente ao cair, devo ter colocado todo o peso do corpo sobre a perna e meio que caí girando, e junto na queda acabou batendo a perna contra o chão duro.

Depois de seis meses, até ganhar confiança a pisar novamente, a perna ficou completamente normal, exceto pela cicatriz e as placas e pinos, que ficarão comigo o resto da vida.

Esta é a última história de fratura, espero não ter mais para contar histórias novas disso 😂😂

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

As vezes que me fraturei parte 6 - Braço esquerdo

A história dessa fratura aconteceu numa situação que pode até ser considerada comum de ocorrer, com exceção do efeito ter sido um pouco além do normal. Ocorreu uns dois anos após o evento anterior, já mais adolescente. Era costume de todos os sábados eu ir de bicicleta com meu pai ao mercado. Era muito bom poder pedalar com ele, sempre bastante cuidadoso. 

O mercado que íamos ficava relativamente longe de casa, mas de onde morávamos era o mais perto e o que meu pai mais gostava de comprar carnes, principalmente para fazer aquela comida caprichada de final de semana. Lembro que todos os sábados, assim que eu acordava e tomava café da manhã, meu pai já estava me esperando para irmos. 

O trajeto misturava asfalto com viaduto, rua com e sem cascalho, ruas com nascentes de água e calçadas irregulares das casas, dependia de qual caminho seguíamos. Descrevendo assim, dá impressão que morávamos bem "no mato" mas na realidade, era que indo pelo interior dos bairros, havia muitas ruas simplesmente sem nenhuma casa e com muitas árvores; a natureza ainda estava conservada em alguns pontos.

Tirando o relevo elevado lá ao fundo e considerando que era região urbana, um dos caminhos que seguíamos era parecido com esse

No dia em que ocorreu minha sexta fratura em questão, fizemos o caminho mais "fácil", fomos pelo asfalto principal. Era um pouco mais longo do que ir cortando pelos bairros e ruas cascalhadas, porém era o mais plano para andar. Num dos pontos do trajeto, havia um trecho em que era somente subida, em que a gente descia da bicicleta e ia empurrando até alcançar a parte plana novamente. Havíamos acabado de terminar a subida e voltamos às bicicletas.

Não sei exatamente por que, mas me chamou a atenção um homem de bicicleta que passou por nós, enquanto começava a pedalar. Ele já havia se distanciado e umas 10 pedaladas depois disso, meu pai na frente, nós dois bem devagar e no reto, eu acabei não prestando atenção e a roda da bicicleta passou em cima de uma pedra solta. No mesmo instante a bicicleta se desequilibrou e eu acabei caindo em cima do braço esquerdo. 

Já na hora senti a dor e pela experiência já sabia o que havia ocorrido. Meu pai parou no mesmo instante e veio acudir. Levantei e já com muita dor falei pra ele que tinha quebrado o braço. Um pouco incrédulo, ele tentou olhar, mas não dava para ver o braço, pois como estava frio, eu vestia um moletom branco. Ao tentar ver, ele me comentou assustado que estava tudo ensanguentado o moletom por baixo. Me apavorei, pois não havia percebido. Compreendi no mesmo instante o que havia ocorrido, era fratura exposta.

Voltamos para casa, meu pai contou para minha mãe a façanha e imediatamente depois ela me levou ao médico. Na clínica, depois de retirarem o moletom, minha mãe e eu fizemos questão de não ver como estava o braço. O médico falou apenas uma ponta do osso havia saído e que não precisaria operar. Fiquei mais aliviado. 

Após anestesia local, umas torções, puxões e estalos depois, o médico já havia colocado as coisas no lugar e posto o gesso. Minha mãe novamente contou o histórico de fraturas e perguntou se eu não tinha nenhum problema ósseo. O médico falou a mesma coisa que os demais já haviam dito, os ossos estavam ok, era eu que eu não sabia cair ou era por azar mesmo.

Minha mãe, depois em casa veio conversar comigo e me disse uma coisa que fez sentido, mas que na época não compreendi direito e nem sabia como lidar, que talvez o motivo de eu me machucar tão fácil era por ser ingênuo demais, que me faltava malícia. Realmente, ela tinha razão, eu era bastante ingênuo, e isso ficava muito visível principalmente na escola, junto dos meus colegas. Sempre fui uma criança muito isolada e isso somado a extrema timidez era a chave da explicação das minhas fraturas. Só fui entender isso anos mais tarde.

Fato é que depois disso desse acontecimento, minha mãe acabou proibindo eu de andar de bicicleta por anos, e mesmo depois de passado o trauma, por questões de deixá-la mais tranquila, resolvi não pedalar mais. Acabamos vendendo a bicicleta e meu pai continuou indo ao mercado nos sábados, mas sozinho.

  

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

As vezes que me fraturei parte 5 - Pé direito

Estava mais ou menos com 11 anos e os eventos passados haviam me ensinado a prestar mais atenção e tomar cuidado, mas parece que mesmo assim o destino me reservaria mais infortúnios. A história dessa vez não foi bem uma fratura, mas me rendeu ficar mais uns três meses de gesso. 

Estava eu em casa, na época criávamos gansos pois o quintal era bem grande. Diferente das outras vezes em que envolveu queda ou pancada, desta vez praticamente até hoje não tem muita explicação, pois ocorreu sem movimento. 

Lembro que no dia em questão eu estava sentado num degrau da calçada, enquanto segurava folhas de couve e tratava os gansos. Fiquei um tempo observando eles comendo, era bastante satisfatório escutar o barulho deles puxando e comendo as folhas da minha mão. Após eles terminarem de comer, levantei e desci o único degrau que a calçada tinha, que nem era alto, dava uns 30 cm do chão no máximo. Foi o suficiente pra, ao por o pé direito no chão já sentir umas pontadas, bem na articulação entre o pé e a perna. Achei bastante esquisito pois não havia feito nada de mais. Não liguei muito pois apesar da dor e incômodo, conseguia andar. 

Falei aos meus pais e tudo indicava que era algum mal jeito, passei uns linimentos e remédios pra torções que havia em casa e esperei passar. Fiquei uma semana insistindo e nada de resolver, parecia que as pontadas estavam ficando mais fortes e o pé começou a inchar bastante. Não deu outra, minha mãe foi ao médico comigo, explicamos o que estava acontecendo e ele pediu um raio x.

O médico olhou a radiografia e comentou que não havia fratura, parecia que algum osso estava trincado ou alguma coisa saído do lugar, não entendemos direito. Ele disse que se eu tivesse demorado mais tempo para ver o que era, provavelmente teria que operar para resolver, mas como ainda era tempo, só precisaria engessar. Eu e minha mãe ficamos perplexos, pois não tinha levado nenhuma pancada, não estava correndo e sim praticamente parado. Perguntamos ao médico como era possível ter acontecido isso. Ele disse que não sabia ao certo, mas acreditava que provavelmente foi a forma como pisei. 

Contamos as histórias das demais fraturas e perguntamos pra ele se eu tinha algum problema nos ossos por ter acontecido tantas vezes. Ele falou que meus ossos eram normais e que tudo o que havia acontecido era porque eu "não sabia cair" (sério que tem que saber como cair?, na hora nem dá tempo de pensar como cair) e que era também um pouco de azar. 

O fato é que fiquei com o gesso no pé (parecia uma bota com cano, ia até o joelho) por três meses e depois que tirei, não havia mais pontadas e nem estava mais inchado. 


Era bem chato ter que pegar ônibus pra ir pra escola com isso, principalmente quando estava super lotado


Mesmo assim, demorei algumas semanas até ter confiança para pisar e andar normalmente, com medo de acontecer alguma coisa.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

As vezes que me fraturei parte 4 - Dente (mais um)

Após os acontecimentos anteriores, já estava bastante mudado. Não fazia mais correria sem motivos e sempre preferia ficar quieto. Já minha diversão estava mais focada em brincar sozinho ou inventar alguma coisa pra passar o tempo. Como era uma criança bastante solitária, gostava de acompanhar meu pai nos afazeres domésticos no quintal de casa  e aproveitava pra ficar  por perto inventando moda.

Acontece que nem sempre as brincadeiras davam muito certo e acabavam atrapalhando meu pai, como uma vez que eu estava jogando tampas de lata de tinta para o alto, para ver quão longe iam (como num lançamento de disco) e num dos lançamentos acabou indo errado e acertando em cheio as costas dele. Lembro que saí correndo para não apanhar.

Em outra ocasião, eu estava brincando de pegar as touceiras dos matos que meu pai carpia e pegava para jogar para o alto, como uma grande peteca pesada. Era interessante porque ia bem alto e sempre caía em pé, pelo peso do torrão. O problema foi que numa dessas quedas, caiu justamente na cabeça dele. Para variar, saí correndo para não apanhar. Apesar da peraltice, nenhuma das vezes a intenção foi acertar ele com alguma coisa.

                                      Imagina isso aqui, com torrão e tudo "voando" e caindo bem do alto
                                                       
Num certo dia, porém, o espírito da travessura se apossou e resolvi fazer uma coisa que não deu muito certo. Depois do almoço, era costume meu pai pagar uma cadeira de praia e sentar na frente da TV, para assistir o jornal e depois tirar um cochilo. Era uma dessas cadeiras que dá para ajustar, de forma a ficar quase deitado. Pois bem, ele estava cochilando na cadeira e eu tive a brilhante ideia de dar um pequeno "susto" nele.
 
Era uma cadeira bem parecida com essa, só não tinha aquela alça metálica to encosto na ponta.


Cheguei bem sorrateiramente por trás e puxei a parte do encosto da cadeira pra baixo. Por ação instintiva e pelo susto, meu pai levantou os braços pra cima e acabou acertando meu queixo com força. Resultado, um dos meus dentes incisivos de baixo bateu contra os de cima, quebrando a ponta. No instante nem dei muita atenção para isso e sim, foi em correr e me esconder, já entendendo a burrada que havia feito. 

Senti a dor do dente de baixo e passando a língua já sabia que havia quebrado. Mesmo assim, esperei escondido por algumas horas, esperando meu pai ficar mais tranquilo, pra poder mostrar o que havia acontecido. Primeiro fui conversar com minha mãe. Depois da preocupação, deu bastante risada e falou que meu pai não estava bravo, e sim preocupado. Fui mostrar pra ele, pedi desculpas e mostrei o serviço. Senti muito mal por ter feito aquilo, e prometi a mim mesmo não fazer mais esse tipo de brincadeira. Fui ao dentista arrumar o dente e apesar do susto, havia lascado um pedaço da ponta, não sendo tão grande quanto a primeira quebra de dente. 

Após esse dia, havia aprendido a lição e nunca mais fiz qualquer tipo de arte ou peraltice. Entretanto o histórico das fraturas ainda estaria na metade....

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

As vezes que me fraturei parte 3 - Braço direito (novamente)

De uma criança elétrica, fui passando a ficar mais contido, tanto pelos eventos de quedas quanto pelo próprio amadurecimento. Enquanto na primeira e segunda me quebrei porque estava correndo, na terceira a história foi bem diferente. Esta ocorreu no ensino fundamental, já em outra escola, lá pela segunda série e pode ser considerada o começo da onda de azar e casos improváveis. 

Como já não era mais tão agitado, minhas brincadeiras em casa não envolviam mais correria desenfreada e na escola gostava de ficar parado, conversando com meus amigos ou geralmente observando a folia do pessoal nos intervalos. Apesar de eu já não ser mais uma criança tão agitada, o mesmo não podia ser dito dos meus coleguinhas de turma, que aproveitavam qualquer ocasião para bagunçar. 



O caso ocorreu durante recreio. A escola em que eu estudava havia vários lugares que costumava sentar e ficar observando a galera, como a arquibancada, os bancos do pátio ou a biblioteca (minha preferida). Nesse contexto, havia acabado de bater o sinal para o recreio, saí da sala e fui procurar algum lugar para sentar. Nesse dia em especial, os lugares que costumava ficar estavam bastante cheios, o que fez com que eu tivesse que procurar outro canto para ficar. 

O pátio da escola na época era bastante irregular, com lugares altos e baixos, e também a parte cimentada da calçada havia alguns degraus, para compensar o terreno desnivelado. Foi justamente num desses degraus que resolvi sentar. Lembro que era alto o suficiente para poder balançar minhas pernas no ar e sobrar cerca de um metro do chão ainda. 

Enquanto estava sentado sozinho esperando o tempo passar, uns colegas de turma estavam atrás de mim, correndo, brincando e se empurrando. Nessa brincadeira, um dos moleques atrás de mim acabou empurrando uma menina e foi tão forte que provavelmente ela iria cair e se machucar seriamente se não fosse um detalhe: ela se apoiou em mim e quem foi para o chão fui eu.

Só senti a mão em minhas costas me empurrando com força e a minha queda ao chão pareceu acontecer em câmera lenta. Assim que me dei conta senti a dor e olhei para meu braço: estava torto. Tinha caído em cima do braço direito. No mesmo instante já me levantei chorando, por uma mistura de dor e pena, pois sabia o que tinha acontecido. Mais uma vez, tive que engessar o braço e ficar três meses com o gesso. 

Três dias depois do ocorrido, já estava de volta na escola. Foi nessa época que aprendi a escrever com a mão esquerda.