quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Língua grudada no congelador

Essa é outra história cômica das muitas, quando era criança. Essa ocasião ocorreu quando tinha mais ou menos uns 7-8 anos. Era verão e o calor estava intenso. Em dias assim, meus pais gostavam de fazer sorvetes caseiros, principalmente para aproveitar o calor e a variedade de frutas que davam no quintal.

Eram sorvetes simples mas muito gostosos, geralmente batia-se a fruta no liquidificador com leite e açúcar, colocava isso dentro de copos e depois no congelador. Eu adorava quando eles faziam isso e até ficava ansioso, esperando congelar para poder pegar. A nossa geladeira era daquelas antigas e relativamente alta, tanto é que para eu poder alcançar alguma coisa de lá ou pedia para meus pais pegarem ou tinha que subir numa cadeira para alcançar.

Era uma dessas e para mim, na época, parecia bem alta      


Num certo dia, meus pais saíram fazer compras no mercado. Naquela época, sempre íamos juntos, quando era para fazer a compra mensal, mas não lembro o por quê nessa ocasião eu havia ficado em casa. Como estava muito calor, lembrei dos sorvetes e como estava sozinho e não alcançava o congelador, subi numa cadeira para pegar.

Eis que abro a porta e vem a decepção, não havia nenhum sorvete ali. Entretanto, uma coisa me chamou a atenção. Notei que em algumas partes no freezer, os sorvetes antigos haviam escorrido e congelado e aí me veio a brilhante ideia vencedora do prêmio "jênio" (com jota mesmo) do ano. Pensei em lamber o negócio. 

Na ponta dos pés, em cima da cadeira e esticando o pescoço, coloquei a cabeça dentro do congelador e consegui por a língua sobre o sorvete escorrido. No mesmo instante aconteceu o óbvio. A língua grudou e aí que veio o desespero. Imediatamente tentei puxar, sem sucesso. Pelo susto quase que me desequilibro, e quanto mais tempo passava mais congelava, o tempo urgia. Aí, como não teve outro jeito, puxei com força de uma vez e finalmente consegui soltar. Um pedacinho da ponta da língua lá havia ficado. 

Não foi algo sério e sim, mais o susto, apenas o suficiente para ficar doendo alguns dias até sarar completamente. Havia aprendido a lição para nunca mais fazer essa besteira.



sábado, 17 de fevereiro de 2018

O dia em que fugi de uma capivara

Essa famosa história rende muitas risadas sempre que eu conto. Ocorreu quando fui a Campos do Jordão, São Paulo, fazer umas coletas de peixes e experimentos para meu doutorado. O local em que eu havia ido, uma estação experimental de piscicultura, fica dentro de um Parque Estadual, conhecido também como Horto Florestal e é aberto durante o dia para visitação do público. É bastante visitado por turistas, pois entre os atrativos há trilhas, lojas de artesanato, bosques, orquidário, viveiro de mudas, restaurante e outras coisas. A área preservada é bastante extensa, recoberta por Mata Atlântica de altitude.   




O lugar é muito bonito, para quem tiver oportunidade e curte natureza, recomendo dar uma visitada


Estação experimental de Truticultura

A região é relativamente afastada do centro urbano da cidade e quando eu fui, fiquei durante uma semana. Posava num dos alojamentos do parque, que são exclusivos para pesquisadores, estagiários ou trabalhadores que vão lá permanecer algum período. 

O alojamento em que havia ficado, fica bem próximo à entrada do parque, sendo afastado uns 4 km de caminhada da Estação de Truticultura, em que eu ia todos os dias cedo e voltava já anoitecendo. A noite, o parque fecha para visitação, podendo permanecer lá dentro somente os funcionários ou pesquisadores nos alojamentos. Quando eu fui, meados de Janeiro, durante a noite ficava completamente vazio, já que era período de férias. Praticamente o único alojamento com alguém era o que eu estava. Junto comigo havia outro rapaz, um acadêmico de administração, fazendo estágio na secretaria do Parque. Ele me comentou que não morava no estado de São Paulo, era de Minas e todo final de semana ele voltava para casa. Sempre que eu voltava da estação ao alojamento, quase anoitecendo, o rapaz já estava lá dentro, com exceção do dia em que fugi da capivara. 

As capivaras são os maiores roedores do mundo, sendo conhecidas por serem bastante dóceis e sociáveis.

                                 É, confesso que são seres simpáticos.                    imgur


Naquela sexta feira, o último dia de trabalho em que fiquei lá, havia sido o mais corrido e as atividades haviam se estendido um pouco mais. Quando eu saí da estação, já estava quase escuro, mas ainda dava pra enxergar o caminho. Como era uma caminhada de uns 40 min até o alojamento, resolvi apressar o passo. Gostei da caminhada, estava fresco e durante todo o trajeto ouvia-se apenas o som da natureza, já que não havia mais ninguém dentro do parque. 
Já quase me aproximando do alojamento, eu vindo apressado pelo caminho quando de repente escuto um grito, berro, rugido (sei lá como chama o som produzido) de um bicho grande, que na hora me fez arrepiar os cabelos. Olhei rapidamente em direção ao som e vi o ser famigerado que o produzia - uma única e isolada capivara no meio de um campo. 

Achei curioso porque ela estava sozinha e reparei que começou a me encarar, e os pelos das costas se eriçaram. Pensei, só falta agora esse bicho querer me atacar aqui no meio do nada. Andei mais ligeiro ainda, quase correndo, até ela não conseguir me ver mais. Ainda ouvia os berros dela, não olhei para trás mas deu impressão que ela estava me seguiu durante algum tempo.


A única foto que consegui tirar da capionça. Vejam os pelos das costas arrepiados.

Chegando no alojamento, já escuro pelo anoitecer, me deparo com mais uma coisa: o carro do rapaz não estava lá. Na hora já lembrei que ele havia comentado que ele voltava para casa nos finais de semana e me deu um embrulho no estômago, porque lembrei que não havia combinado como faríamos com a chave. 

Se não conseguisse entrar, já estava pensando na possibilidade de ter que voltar todo o trajeto até a estação, no escuro, e com a capivara na espreita. Mas eis que me veio a ideia de procurar a chave por perto da porta. Vasculhei cada canto e perto do tanque de roupa, já quase desistindo, vi a fonte do meu alívio do dia, a chave ali estava, num vão do tijolo. Dormi aliviado, pensando onde estaria aquela capivara maluca.


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

A vez em que mordi a língua do meu cachorro

É isso mesmo, eu já mordi a língua de um cachorro. Aproveitando a contar essa história engraçada, também uso da ocasião para deixar uma homenagem a este cãozinho que tanto marcou minha vida e da minha família. 

Esse cachorro em questão, de nome Pingo, era o xodó da família, um pequenino vira-lata que eu conheci ainda quando nem tinha aberto os olhos e cabia na palma da mão. Era um dos filhotes, de uma ninhada de 6. A mãe era um cachorro de rua e deu à luz num buraco, num terreno baldio perto de casa. Quando os filhotes nasceram, um dos vizinhos, que nunca cuidava nem dos próprios cachorros, resolveu ficar com eles. Um dos filhotinhos em questão havia chamado minha atenção pois era o único de cor diferente em relação aos demais - era branquinho com algumas manchas marrons. Já seus irmãos eram marrons e pretos. 

O vizinho percebeu que eu havia me interessado e perguntou se eu não queria comprá-lo. Achei um absurdo, pois os cachorros eram de rua. Mas como tinha sido o vizinho quem havia notado os filhotes antes, não pude contestar. Resolvi compra-lo e aproveitei e peguei outro dos irmãos dele, que foi nomeado de Roliço, pois era o mais gordinho de todos.

Quando trouxe para casa, a intenção era deixá-los no quintal, junto com os demais (já tínhamos mais outros três). Montamos um cercadinho, colocamos a casinha e tudo mais e deixamos eles lá. Choravam muito no começo e sempre queriam companhia. O Pingo a partir desse momento já começou a demonstrar sua esperteza e que não era um cachorro qualquer. Depois de uns dias, ele aprendeu a "escalar" a tela do cercadinho e pular, para ficar junto de nós, enquanto o roliço ficava chorando sem saber o que fazer. Após muita insistência e tentativas frustradas de barrar a escalação, como eram cachorros pequenos, resolvemos traze-los para dentro de casa. Eu havia achado a ideia o máximo, já meus pais no começo não haviam curtido muito, mas depois foram gostando da ideia.

Um mês depois veio uma baixa. Mesmo com vacinas e remédios, o Roliço começou apresentar muitos vermes e acabou morrendo. O Pingo, por sua vez, mantinha de saúde exemplar. O tempo foi passando e ele cada vez mais se tornando o xodó de casa, pois era muito inteligente. Entendia tudo o que falávamos e aprendia muitas coisas sozinho. Tinha um comportamento único de ser muito expressivo, e demonstrava suas vontades através disso. Era também um grude, sempre seguindo alguém de casa. Eu, na época criança, adorava brincar com ele. 

Uma das coisas que ele fazia muito, era lamber o rosto sem parar quando era pegado no colo e uma vez, resolvi brincar de abrir e fechar a boca batendo os dentes, enquanto ele lambia. Brincadeira sem noção e nem sei por que fiz. Foi aí que bem no instante que a fechei a boca acabei mordendo a língua dele. Não foi com força mas foi inesperado. Na hora ele soltou um grito de susto, mas logo depois começou a abanar o rabinho e já voltou a me lamber novamente.

 Este é o Pingo, lendário cãozinho companheiro. 


Esse cachorrinho marcou nossas vidas, acompanhando muitas coisas junto da nossa família. Uns 10 anos depois, ele latindo no portão e um dos filhos daquele vizinho que havia me vendido, passando na frente da rua de casa, comentou surpreso que o cachorro ainda estava vivo. Não me surpreendeu o comentário, já que os demais filhotes que haviam ficado com eles já haviam morrido há muito tempo. O vizinho ficou com eles apenas enquanto eram filhotes. Assim que começaram a crescer, ficavam mais abandonados na rua do que cuidados, e o vizinho acabou dando um sumiço neles depois de um tempo.


Saudades imensas desse pequeno grande cãozinho.


O Pingo, esse cãozinho lendário, viveu por quase 20 anos. Foi o cachorro mais velho que tivemos e também o que mais deixa saudades. 

Godspeed, my dearest Pingo.